
O viajante deita
e no sono continua a
caminhada.
Roberto Evangelista
A sociedade brasileira perdeu um de seus grandes e lúcidos integrantes, na pessoa do Dr. Domingos Bernardo Gialluisi da Silva Sá. No dia 17 de agosto deste ano, seu brando coração cessou os movimentos e seu espírito repousou nos verdejantes campos do Senhor.
Felizmente, sua incalculável herança espiritual de saberes jurídico, espiritualista e cultural continuará a pulsar em tantos outros corações. Somente com o tempo e com acuradas pesquisas, esse vasto legado poderá ser mais organizadamente reunido e consolidado.
Ao longo de sua vida, o Dr. Domingos – que gostava de ser chamado pelo segundo nome, Bernardo, o mesmo do primeiro irmão franciscano – acumulou um valiosíssimo cabedal jurídico, o qual aliou à coragem de um homem de prática de vida correta e com a força do bem em sua consciência. Sabemos que a palavra “coragem” vem do latim cor, cordis: coração. Pois assim se nos apresentava o Dr. Domingos Bernardo, um cavalheiro de fina estampa, mercê de sua força moral.
Quantas crianças – hoje jovens adultos – se beneficiaram da inteligência aguda do eminente jurista, quando se insurgiu, com a firmeza e autoridade de quem sabe o que faz, contra a proibição, arbitrariamente decidida por duas vezes pelo Conselho Federal de Entorpecentes (Confen), de os menores filhos de sócios receberem a comunhão da Hoasca, o sacramento das religiões ayahuasqueiras. E deixou registrada com veemência sua posição, condenando a “apropriação indébita e policialesca do Estado no âmbito das relações familiares”.
Por iniciativa da União do Vegetal, em petição assinada pelo advogado Luís Felipe Belmonte, o Confen, por meio de Grupo Multidisciplinar de Trabalho (GMT), resolveu analisar o Chá Hoasca em todos os seus múltiplos aspectos. Em maio de 1989, o jornal Alto Falante publica matéria, intitulada “Hoasca é a busca do autoconhecimento e do sagrado”, de autoria da jornalista Cristina da Luz, na qual o Dr. Bernardo relata o que disse, sem hesitação, quando recebeu do então Presidente daquele Conselho, Dr. Técio Lins e Silva, a incumbência de presidir o GMT: “Se o chá é alucinógeno, tem que ser proibido”.
Todavia, ele era um pensador, e fiel às suas firmes regras de imparcialidade não se deixa levar por uma apreciação superficial, desprovida de maiores fundamentos e, provavelmente, preconceituosa. Estuda, reflete, bebe o Chá Hoasca, e no exercício da missão que lhe fora confiada, juntamente com alguns homens notáveis, chega à decisão que lhe parece justa: “Não cabe, também, ao Grupo de Trabalho definir se a forma de experienciar o Sagrado ou o autoconhecimento é ilusão, devaneio ou fantasia – acepções outras de alucinação”.
Com o tempo, o Dr. Domingos se expressa de forma mais precisa a respeito do tema: “O sacramento ganha vida a partir dos sentidos, quando eles se traduzem em sentimentos. Não há sacramento sem sentimento”.
O eminente jurista acumula grandes vitórias, todas elas revestidas de sua ética, valores e princípios inabaláveis. Para os adeptos das religiões que têm na Ayahuasca seu sacramento, destaca-se sua ação junto àquele grupo de trabalho, formado para examinar o contexto da produção e do consumo da bebida. Ao fim, em 2 de junho de 1992, o Dr. Domingos Bernardo Gialluisi da Silva Sá apresenta seu parecer conclusivo, na 5ª Reunião Ordinária do Confen, considerando não haver razões para alterar a conclusão de 1987, favorável às religiões ayahuasqueiras. Ambas as decisões, de 1987 e 1992, são aprovadas por unanimidade.
Ao tomar conhecimento da passagem para o plano da espiritualidade do sábio humanista e grande lume jurídico Dr. Domingos, um inesgotável sentimento de gratidão por todo o trabalho que ele desenvolveu em prol do uso religioso da Hoasca vem ao coração da irmandade do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal.
Mestre Gabriel, fundador da União do Vegetal, nos ensina que “o bem, só quem sabe é quem recebe”. Não temos palavras que possam abarcar e demonstrar a dimensão do bem que recebemos da mente lúcida e ativa, do trabalho incansável do hoje já saudoso Dr. Domingos Bernardo Gialluisi da Silva Sá – ou, humilde e franciscanamente, Bernardo.
Que as palavras do Divino Mestre Jesus – “onde está o seu tesouro, ali também está seu coração” – possam amenizar a dor da perda, pois toda a sinceridade, altivez, generosidade, justiça e amor que preencheram a vida do Dr. Domingos hoje fazem com que esteja em paz, junto ao Criador.
*Edson Lodi é integrante do Conselho da Representação Geral do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal.
Nota dos editores: para saber um pouco mais do trabalho do Dr. Domingos Bernardo, conheça também o livro de sua autoria Droga – A Dicção.